Memórias do Subsolo ♥

Memórias do Subsolo - Juliana Fiorese

Não consegui chegar a nada, nem mesmo tornar-me mau:
nem bom nem canalha nem honrado nem herói nem inseto.
Agora, vou vivendo os meus dias em meu canto, incitando-me
a mim mesmo com o consolo raivoso – que para nada serve  –
de que um homem inteligente não pode, a sério, tornar-se
algo, e de que somente os imbecis o conseguem“.
[Memórias do Subsolo, p. 17]

Então, a primeira resenha de 2016 é do último livro lido em 2015. E que livro !

Memórias do Subsolo - Juliana Fiorese

ISBN: 978-85-7326-185-1 | Editora 34 | 152 páginas | 20,8 x 14 x 1,2 cm | 2009

O meu primeiro – e até então único – contato com Dostoiévski foi no início da minha faculdade de arquitetura – em 2005 – com Crime e Castigo; e eu lembro que o livro me prendeu do início ao fim ♥.

A maneira que Dostoiévski nos relata os acontecimentos de suas histórias é tão incrível, tão sensacional e tão mágica, que chega a ser poética.

Ele consegue imergir na profundidade de conflitos psicológicos de uma maneira tão intensa, que o leitor fica até sem ar, sentindo ele próprio o desconforto vivido pelo personagem.

Pelo menos foi o que aconteceu comigo em Crime e Castigo. Não foi diferente em Memórias do Subsolo.

Memórias do Subsolo - Juliana Fiorese

Título - Juliana Fiorese

Memórias do Subsolo, apesar de ser um livro curto – 152 páginas – não é um livro de fácil leitura. Ele é um livro bastante denso e repleto de pensamentos que nos exigem certas reflexões.

Muitas vezes eu me perdi durante a minha leitura e precisei reler os capítulos para poder compreender bem o raciocínio do personagem que, à propósito, não tem seu nome citado na história inteira ! Ele é relatado apenas como Homem do Subsolo.

Memórias do Subsolo - Juliana Fiorese

Narrada em primeira pessoa, vamos ficar conhecendo a história do Homem do Subsolo e o seu ponto de vista de mundo, à partir do seu olhar.

O livro é dividido em duas partes: O subsolo e A propósito da neve molhada.

Memórias do Subsolo - Juliana Fiorese

primeira parte – O subsolo –  acontece no tempo presente e o Homem do Subsolo vai nos contar que está nos seus quarenta anos, doente do fígado e sem pretensões de ir à qualquer médico, e que abandonara um cargo público para viver de uma pequena herança, afastado de toda a  sociedade.

Memórias do Subsolo - Juliana Fiorese

Logo de início, nós percebemos que o Homem do Subsolo não está nada bem. Mas não falo do seu problema com o fígado, e sim pelo fato de percebermos que sua mente está totalmente atormentada.

Memórias do Subsolo - Juliana Fiorese

O narrador-personagem vai mudar constantemente de ideia, vai contradizer-se e, sobretudo, vai nos confessar que mentira em diversas situações.

Muito inteligente e instruído, o Homem do Subsolo vai nos mostrar toda a sua amargura e todo o seu sincero escárnio perante às pessoas e à sociedade.

Memórias do Subsolo - Juliana Fiorese

Já na segunda parte – A propósito da neve molhada -, o narrador-personagem vai nos contar fatos que lhe aconteceram em sua juventude, por volta de seus vinte e quatro anos.

Nós percebemos então que o Homem do Subsolo sempre teve essa dificuldade de relacionar-se com as pessoas e de integrar-se naturalmente à sociedade, tomando decisões que prejudicam sim os outros mas, sobretudo, o prejudicam ainda mais que a qualquer pessoa.

Memórias do Subsolo - Juliana Fiorese

E eu achei genial a maneira que Dostoiévski me conduziu para odiar as atitudes do Homem do Subsolo e, ao mesmo tempo, concordar com todas as ideias que ele defende.

É isso que Dostoiévski faz com a gente, nos deixa nesse mar de controvérsias.

Memórias do Subsolo - Juliana Fiorese

O autor consegue ir tão a fundo no sentimento e na dor do personagem que – como eu falei no início do post – nós sentimos no nosso coração todo o conflito interno do Homem do Subsolo, toda a sua paranóia exagerada e o seu desejo de suprimi-la.

Memórias do Subsolo - Juliana Fiorese

Memórias do Subsolo vai nos retratar bem, através do olhar e das escolhas do Homem do Subsolo, questões sobre o livre-arbítrio que, mesmo sabendo o que é melhor para ele, ele deseja o que é pior; o Homem do Subsolo até sente certo prazer nisso e, na minha opinião, é como se ele precisasse dessa dor para constatar que está vivo, quando não se tem mais o que fazer.

Particularmente, a primeira parte foi a que eu mais achei difícil de ler e, agora, acredito que precisarei voltar ao início da história. É assim, um processo cíclico mesmo.

Título - Juliana Fiorese

A capa do livro é em couchê fosco e eu simplesmente amo o design simples de todas essas capas que a Editora 34 faz, com uma ilustração no topo, o background branco e as informações textuais (autor, título, tradutor e editora) em baixo.

Memórias do Subsolo - Juliana Fiorese

A diagramação do texto é ótima, a margem é grande, o tamanho da fonte é confortável, assim como o espaçamento entre as linhas. A experiência de leitura é maravilhosa.

Na última parte do livro, temos informações sobre Dostoiévski, sobre o tradutor Boris Schnaiderman, e todos os títulos da Coleção Leste da Editora 34.

Memórias do Subsolo - Juliana Fiorese

Memórias do Subsolo - Juliana Fiorese

Nas orelhas da capa e na quarta capa temos a sinopse da história.

Memórias do Subsolo - Juliana Fiorese

Título - Juliana Fiorese

Juro-vos, senhores, que uma consciência muito perspicaz é uma doença, uma doença autêntica, completa. Para o uso cotidiano, seria mais do que suficiente a consciência humana comum, isto é, a metade, um quarto a menos da porção que cabe a um homem instruído do nosso infeliz século dezenove (…)” [p.18]

Mas perguntai: para que me mutilava e me atormentava assim? Resposta: porque era muito enfadonho ficar sentado de braços cruzados. Lançava-me, então, nas minhas escapatórias“. [p. 29]

(…) mesmo atualmente, embora o homem já tenha aprendido por vezes a ver tudo com mais clareza do que na época bárbara, ainda está longe de ter-se acostumado a agir do modo que lhe é indicado pela razão e pelas ciências“. [p.37]

Realmente, eu, por exemplo, não me espantaria nem um pouco se, de repente, em meio a toda a sensatez futura, surgisse algum cavalheiro de fisionomia pouco nobre, ou melhor, retrógrada e zombeteira, e pusesse as mãos na cintura, dizendo a todos nós: pois bem, meus senhores, não será melhor dar um pontapé em toda esta sensatez unicamente a fim de que todos esses logaritmos vão para o diabo, e para que possamos mais uma vez viver de acordo com a nossa estúpida vontade?!” [p.38]

As nossas vontades são, na maior parte, equívocos devidos a uma concepção errada sobre as nossas vantagens. Se queremos às vezes um absurdo completo, é porque vemos nesse absurdo, devido à nossa estupidez, o caminho mais fácil para atingir alguma vantagem previamente suposta. Bem, mas quando tudo isso estiver explicado, calculado sobre uma folha de papel (…), então naturalmente não existirão mais os chamados desejos“. [p.40]

Embora tenha afirmado, no início, que a consciência, a meu ver, é a maior infelicidade para o homem, sei que ele a ama e não a trocará por nenhuma outra satisfação“. [p.48]

Memórias do Subsolo - Juliana Fiorese

Eu gostei muito desse livro ♥ ♥ ♥ !! As duas últimas páginas são tão intensas e tão profundas que li e reli umas cinco vezes !! Queria arranca-las do livro e cola-las no espelho ♥ !!

Se eu fizesse uma lista dos três melhores escritores do mundoDostoiévski estaria nela. E agora eu quero, não… Eu pre-ci-so ler todos os livros dele ♥ !!

Me contem aqui nos comentários quais livros de Dostoiévski vocês já leram. Quem ainda não leu, ficou com vontade de conhecer a obra do autor?

É isso, pessoal !!

Espero que tenham gostado da resenha de hoje.
Muito obrigada por acompanharem até aqui !!

Com carinho ♥, Juliana Fiorese.


10 comentários sobre “Memórias do Subsolo ♥

    1. Olá Wanderson !! Estou tão feliz em saber que você gostou do meu trabalho e em saber que tem sempre acompanhado aqui o blog !! Muito, muito, muito obrigada mesmo !! ❤

      Eu fiquei conhecendo o Prêmio Dardos hoje, acredita ?! Mas ainda não li muito sobre ele. Vou me informar melhor. Mas eu já vou te agradecendo imensamente pela sua indicação !! Sério, não sei nem como agradecer.

      ❤ ❤ ❤

      Muito obrigada !!

      Curtido por 1 pessoa

  1. Olá Ju!
    Td bom?
    Bem eu sempre quis ler Dostóievski mas sempre percebi que a leitura seria difícil, então quando vi um HQ da LPM Pocket da história “os irmãos karamazov” eu comprei logo!
    Apesar de não ser na intriga a escrita do autor eu adorei a história! Posso imaginar como todos os livros dele devem ser assim!
    E Espero um dia poder ler um livro dele na íntegra!
    Beijinhos :*
    simplyonestory.blogspot.com.br

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oii Raquel !! Tudo bom sim !! E com você ?! ❤

      Acredita que um dos livros que está na minha lista de livros para ler em 2016 é justamente Os Irmãos Karamazov ?! ❤

      A experiência de leitura com os livros de Dostoiévski é sensacional e diferente de tudo que eu já vivi nas leituras que fiz até hoje !! Vale muito conhecer algum trabalho do autor. Assim que terminar um livro, certeza querer ler outro e outro e outro. ❤ Quando eu for ler Os Irmãos Karamazov eu vou avisar lá no instagram !! ❤

      Agora eu estou muito curiosa para ler a HQ que você falou, eu não conhecia. Vou procura-la tão logo terminar de ler o livro. ❤ ❤ ❤

      Beijoooos !!

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    1. Owwwn, que amor, Rafa !! Obrigada !! ❤

      É essencial ler Dostoiévski algum momento, Rafa !! Mas eu não indicaria o Memórias do Subsolo para começar… Eu indicaria começar com Crime e Castigo, como eu fiz. Se bem que, eu só li esses dois, né ?! Não posso falar muito, ahaha !! Esse ano eu vou reler Crime e Castigo e vou ler Os irmãos Karamazov.

      Mas deixa o Memórias do Subsolo na wishlist sim !! Ele é maravilhoooooooso !! ❤ ❤ ❤

      Sempre que eu ler um livro do autor, venho aqui e conto o que achei !!

      Beijos !! ❤

      Curtido por 1 pessoa

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