O filho de mil homens ♥

O filho de mil homens - Juliana Fiorese

Reparava nisso, estupefacto de calma, apaziguado com as sortes,
a pensar que a tristeza tinha um caminho
 e que, a guiar pela vontade,
ainda seria possível
 que descobrisse a felicidade.
[O filho de mil homens, p. 117]

Este foi o meu primeiro contato com o trabalho de Valter Hugo Mãe e eu já posso dizer que ele me ganhou nas primeiras linhas com a sua escrita extremamente poética.

Me pareceu que sinos estavam tocando e as ondas quebrando bem perto enquanto ele ia me contando as histórias de O Filho de Mil Homens.

O filho de mil homens - Juliana Fiorese

ISBN: 978-85-250-6253-6 | Biblioteca Azul | 224 páginas | 21,8 x 14,8 x 1,6 cm | 2016

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Título - Juliana Fiorese

O filho de mil homens - Juliana Fiorese

O Filho de Mil Homens conta as histórias de diversos personagens que carregam um histórico muito pesado de vidas recheadas de desgraças e vazios que afundariam qualquer pessoa.

Mãe vai descrevendo cada situação da maneira mais calma possível e com tamanha delicadeza vai trazendo à tona assuntos fortes, apresentando-os com uma certa leveza na sua narrativa.

Todas essas histórias vão se interligando e as personagens vão se apoiando umas às outras no meio de todo esse vazio na existência deles de uma maneira tão bonita e com uma sensibilidade sem tamanho, que até então eu não havia encontrado em lugar nenhum.

O filho de mil homens - Juliana Fiorese

A obra tem início com Crisóstomo, um humilde pescador de 40 anos, solteiro, que está cansado de viver sozinho e procura um filho para sentir-se completo. Ele chega até a comprar um boneco de pano para conversar, dividir suas histórias e fazer-lhe companhia ! comoissoétriste.

Até que ele encontra Camilo, um pré-adolescente órfão, e juntos constroem um forte laço preenchendo o vazio que ambos carregavam no coração. Camilo sugere que, para seu pai sentir-se o dobro do que ele já é, precisa casar-se e, assim, Isaura e tantas outras personagens vão aparecendo na história e formando uma nova família.

O filho de mil homens - Juliana Fiorese

O que mais vamos encontrar ao longo das páginas de O Filho de Mil Homens é o sofrimento, a solidão e a maneira como cada personagem lida com isso, aceitando – por um caminho árduo – o ambiente hostil em que vivem – seja no campo, na praia ou na serra – e, sobretudo, aceitando-se do jeito que são.

Mãe nos leva, assim como a suas personagens, por um fio tênue de esperança – em meio a uma sociedade com tanta hipocrisia, maldade, perversidade, ignorância, julgamentos – que vai nos conduzindo e nos ensinando que, acima de tudo, não devemos nunca limitar o amor, seja ele qual for. E é esse amor que vai nos transformar e fazer com que transformemos também o mundo em que vivemos.

E, sim, cada personagem de Mãe muda o mundo. ♥

05-juliana-fioreseaO filho de mil homens - Juliana Fiorese

O filho de mil homens - Juliana Fiorese

Eu ainda estou impressionada com a maneira que Valter Hugo Mãe vai a fundo no sentimento humano. Ele está sempre dizendo que “fulano está caindo mais e mais para dentro de si mesmo” e eu acho de uma imensidão tão grande que fico refletindo sobre isso o tempo inteiro. Tem algo mais assustador do que você cair e se trancar em si?

Acho que todos deveriam ler esse livro. Mãe trata de assuntos muito complexos e importantes de maneira bem simples e impactante que vai nos fazer pensar sobre nós e sobre toda a sociedade em que vivemos.

O filho de mil homens - Juliana Fiorese

Vai ser fácil lembrar sempre de cada uma das personagens de O Filho de Mil Homens sempre tão doces e tão adoráveiscontraste este com os ambientes e as situações em que viveram.

O mundo precisa de mais olhares e modos de levar a vida como o de Crisóstomo. ♥

Este virou fácil um dos livros mais importantes que li esse ano.

O filho de mil homens - Juliana Fiorese

O filho de mil homens - Juliana Fiorese

O filho de mil homens - Juliana Fiorese

Título - Juliana Fiorese

E muito pouco lhe importava o disparate, tinha nada de vergonha e sonhava tão grande que cada impedimento era apenas um pequeno atraso, nunca a desistência ou a aceitação da loucura.” [p. 21]

Cada segundo a menos no tempo de um filho era para um pai uma trágica perda, e nada haveria de o compensar.” [p. 22]

A esperança era uma coisa muda e feita para ser um pouco secreta.” [p. 23]

O sol era que mandava, a significar a vida que se punha a continuar para além até das grandes tristezas.” [p. 24]

Era uma festa por dentro das pessoas.” [p. 26]

Quem tem menos medo de sofrer, tem maiores possibilidades de ser feliz.” [p. 27]

E toda a gente, incapaz de conter a fúria e perplexidade, exclamava ordinariamente: ai a ordinária. Benziam-se e lembravam-se das convicções espirituais e repetiam o palavrão.” [p. 37]

Ter um filho implicava o esforço irredutível de lutar por ele para que auferisse do melhor possível na vida.” [p. 39]

As pessoas imaginavam e desejavam as coisas mais feias, tornando-se pessoas feias pelo medo e pela avidez de continuarem a ser como sempre haviam sido.” [p. 43]

(…) a eternidade da vida era demasiado para qualquer fantasia (…)” [p. 47]

Ela olhou por sobre o muro e percebeu que, mínima e a diminuir, estava a trancar-se cada vez mais, como a fugir por dentro, para longe, para um lugar tão distante que podia existir só dentro das pessoas.” [p. 64]

Talvez tivesse percebido que a natureza era, toda ela, uma expressão exuberante e que manifestar os seus sentimentos seria uma participação ínfima nessa honestidade do mundo.” [p. 69]

Pensava que o passado tinha pernas longas e corria, sim, e muito, como um obstinado a marcar a sua presença, a sua herança. O passado é uma herança de que não se pode abdicar, disse o doutor.” [p. 72]

Para entreter curiosidades, o velho Alfredo oferecia livros ao menino e convencia-o de que ler seria fundamental para a saúde.” [p. 78]

“Ser o que se pode é a felicidade.” [p.86]

Ela perguntou: o boneco tem nome. Ele respondeu: não. Ela disse: que sorte, assim não precisa de ser ninguém. Quem não é ninguém não lhe falta nada.” [p. 88]

Reparava nisso, estupefacto de calma, apaziguado com as sortes, a pensar que a tristeza tinha um caminho e que, a guiar pela vontade, ainda seria possível que descobrisse a felicidade.” [p.117]

Ando cá a pensar, disse o Camilo. Em quê. Nas pessoas. No que dizem. No que dizem e no que é verdade. Por vezes é diferente. Pode não ser mentira, mas apenas uma maneira diferente de acreditar.” [p. 117]

O Crisóstomo explicava que o amor era uma atitude. Uma predisposição natural para se ser a favor de outrem. É isso o amor. Uma predisposição natural para se favorecer alguém. Ser, sem sequer pensar, por outra pessoa.” [p. 122]

Explicou ao Crisóstomo que a um dado momento era preciso amar sem olhar a quem.” [p. 128]

Mas uma pessoa nunca seria como um monstro marinho, nunca seria como a mentira de uma serpente de duas cabeças. Uma pessoa nunca seria uma mentira.” [p. 133]

E amar uma pessoa é o destino do mundo.” [p. 135]

Quando se conhece alguém, pensou o Crisóstomo, procuram-se as exuberarias dos gestos, como para fazer exuberar o amor, mas o amor é uma pacificação com as nossas naturezas e deve conduzir ao sossego. O gesto exuberante é um gesto desesperado de quem não está em equilíbrio.” [p. 140]

Os pescadores nunca entenderiam que a vida do Crisóstomo fosse diferente assim, mas esperar que a vida de toda a gente fosse igual era uma rotunda estupidez.” [p. 141]

Nunca limites o amor, filho, nunca por preconceito algum limites o amor.” [p. 141]

Parecia que se juntavam para  tornarem cada história fundamental. Como se fosse fundamental cada concha, cada objeto esquisito e tudo ser contado em companhia.” [p. 143]

Parecia um carrossel de gente em torno das cores alegres dos pratos e das comidas. Faltava que girasse. Tinha de ser uma festa, talvez fosse mesmo uma festa, porque sobre as dores de cada um se celebravam de algum moda as partilhas, a disponibilidade cada vez mais consciente da amizade. Estavam à mesa carregados de passado, mas alguém fora capaz de tornar o presente num momento intenso que nenhum dos convidados quereria perder. Naquele instante, nenhum dos convidados quereria ser outra pessoa. O Crisóstomo pensava nisso, em como acontece a qualquer um, num certo instante, não querer trocar de lugar com o rei ou rainha nenhuns de reino nenhum do planeta.” [p. 183]

Nunca cultivar a dor, mas lembra-la com respeito, por ter sido indutora de uma melhoria, por melhorar quem se é.” [p. 187]

(…) todos nascemos filhos de mil pais e de mais mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo. Como se os nossos mil pais e mais as nossa mil mães coincidissem em parte, como se fôssemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. Somos o resultado de tanta gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa a pessoa, que nunca estaremos sós.” [p. 204]

E, entre a tristeza, foram de novo levadas a sentir alguma felicidade.” [p. 211]

O filho de mil homens - Juliana Fiorese

Título - Juliana Fiorese

O Filho de Mil Homens tem capa paperback revestida com soft touch, sem orelhas, em cores alegres fazendo um contraste com os temas pesados abordados na história ♥ e o corte é amarelo !! As bordas do livro são arredondadas, gente. Um amor só.

Eu não sei se foi só a minha edição, mas quando terminei de ler minhas mãos ficaram um pouco amareladas. Mas não me incomodei não. ♥

As páginas são amareladas – em papel pólen soft -, a diagramação do texto é muito boa, com margem espaçosa, tamanho da fonte – ela é maiorzinha que o normal – bem confortável, assim como o espaçamento entre as linhas, tornando a experiência de leitura muito aconchegante.

No final do livro nós temos uma Nota do Autor e, por fim, uma mini biografia de Valter Hugo Mãe.

O filho de mil homens - Juliana Fiorese

O filho de mil homens - Juliana Fiorese

O filho de mil homens - Juliana Fiorese

O filho de mil homens - Juliana Fiorese

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Quem já leu o livro? O que achou dele?
E quem ficou com vontade de conhecer O Filho de Mil Homens ?! 

Me contem aqui nos comentários, eu adoraria conhecer a opinião de vocês ♥ !!

Espero que tenham gostado do post de hoje.
Muito obrigada por acompanharem até aqui.

Com muito carinho ♥,
Juliana Fiorese.

♥ MINHA LOJINHA ONLINE ♥

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13 comentários sobre “O filho de mil homens ♥

    1. A edição está bem bonita mesmo, Débora !! Mas a história e as personagens, somadas à maneira que Valter Hugo Mãe nos conta tudo são mais bonitas ainda !! Eu sempre vou recomendar para quem puder, porque certamente lerei esse livro mais de uma vez na minha vida. Espero que você leia também !! ❤ ❤ ❤ ❤ Beijos !!

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  1. Que livro incrível! Ainda quero ler, acho até que comprei o ebook por indicação da Isabela Lapa. ❤ Sua resenha só me deixou mais curiosa, hahaha. Essa edição é nova? Ele estava com a COSAC, achei curioso ver na edição da Biblioteca Azul (deve ter sido comprado após o fechamento da Cosac). Bjssss

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    1. Eu super recomendo, Raquel !! ❤ ❤ ❤ É muito lindo !! São atitudes e pensamentos dessas personagens que a gente merece levar pra vida !! ❤ ❤ ❤ Espero que leia mesmo, tenho certeza que irás se encantar !!

      Ah, sim, essa edição é nova, lançou esses dias. A Biblioteca Azul comprou os direitos depois que a Cosac fechou. Mas acho que ainda tem pela edição deles.

      Enfim, vale muito a leitura !! ❤ ❤ ❤ ❤ ❤ ❤

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    1. Oiii Mayumi !! Muuuito obrigada !! Que bom que gostou da resenha !! ❤ ❤ ❤ Eu nunca li outro livro dele, mas eu já sugiro que pode começar por esse. É de uma beleza gigantesca !! ❤ ❤ ❤ Depois que ler – qualquer livro dele -, me conta o que achou !! Beijos !! ❤

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  2. Cada vez que alguém lê Valter Hugo Mãe é um sentimento de conforto no meu coração! Eu li “A desumanização” dele e amei a história, amei a escrita, amei o sentimento do livro (fiz um resenha super apaixonada haha) ❤
    Gostei nele exatamente o que disse, a leveza com que trata de assuntos pesados!! Espero que leia mais Valter Hugo Mãe, beijosss!

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    1. Aaaah, Rafa !! Quero ler todos os livros dele !! Só não li um seguido do outro porque o coração não aguenta, ahahaha. Mesmo com toda a leveza, são assuntos pesados né ?! Mas como já faz um tempinho que li “O Filho de mil homens” (e já te indico demais essa leitura) acho que já está na hora de pegar outro dele para ler. ❤ ❤ ❤

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  3. Estou lendo “A desumanização” e estou muito impressionado com o nível de sensibilidade e poesia com que ele mergulha nos sentimentos humanos. Acabei de pesquisar sobre o autor e descobri que ele está fazendo HOJE em SP o lançamento de um novo livro (“Homens imprudentemente poéticos”).

    Mas também achei uma entrevista na qual ele conta que muda o estilo de escrita a cada livro… então já estou curioso pra ler outros.

    No novo livro ele escreveu toda a história sem usar a palavra “não” !!!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oii Samuel !! Já ouvi falarem muito bem deste livro, A Desumanização. Por enquanto, só li “O Filho de mil homens” e já recomendo demais. Certamente faz parte da lista de melhores livros lidos neste ano. E estou bem curiosa para conhecer este novo livro dele !! ❤ ❤ ❤ Deve ser igualmente incrível !! ❤ ❤ ❤ Aproveita para ir no lançamento !!!

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